DOR

O problema da dor.

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A dor é definida segundo a IASP (International Association for Study of Pain), como uma experiência subjetiva desagradável, sensitiva e emocional, associada à lesão real ou potencial dos tecidos, sendo experienciada por quase todas as pessoas, além de ser, geralmente, o motivo que as leva a procurar o sistema de saúde.

A dor está intrinsecamente relacionada com aspetos cognitivo-comportamentais, sócio-culturais, de personalidade, entre outros, que podem influenciar na perceção da experiência dolorosa. É de extrema importância tentar identificar através de uma avaliação criteriosa a origem da dor antes de dar início a um programa de atividade física.

Neste artigo iremos apenas explorar a dor associada à lesão ou alteração mecânica dos tecidos. Para isso utilizaremos um exemplo comum, a dor lombar.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a lombalgia ou dor lombar, afeta 80% da população mundial, pelo menos uma vez na vida. Esta dor pode estar relacionada com disfunções da articulação sacro ilíaca, ou decorrente de alguma discopatia. Pode ainda ter como origem algumas alterações musculares. A maior parte das pessoas teme o diagnóstico das discopatias e associa este diretamente com necessidade cirúrgica, o que na realidade na maioria das vezes não é necessário.

De acordo com um artigo publicado na American Journal of Neuroradiology em 2015, envolvendo um estudo com 3110 indivíduos que não apresentavam nenhuma dor na coluna (assintomáticos), com idades compreendidas entre os 20 e 80 anos, tendo todos eles sido submetidos à Ressonância Nuclear Magnética, concluiu-se o seguinte:

Degeneração discal:
37% nas pessoas com 20 anos.
80% nas pessoas com 50 anos.
96% nas pessoas com 80 anos.

Abaulamento discal:
30% nas pessoas com 20 anos.
60% nas pessoas com 50 anos.
84% nas pessoas com 80 anos.

Discopatia Degenerativa:
37% nas pessoas com 20 anos.
80% nas pessoas com 50 anos.
96% nas pessoas com 80 anos.

Perda de Altura em Disco:
24% nas pessoas com 20 anos.
56% nas pessoas com 50 anos.
84% nas pessoas com 80 anos.

Este estudo demonstra que a existência de uma alteração discal pode não ser a causa da dor lombar, seja esta com ou sem irradiação para membros inferiores. Nesse sentido a intervenção conservadora por meio de exercício físico é muito importante. Mas qual conduta devemos adotar na prática dos exercícios?

É comum encontrar nesta população após a realização de uma boa avaliação algumas alterações musculares, como por exemplo um encurtamento do músculo Psoas maior. Este músculo tem inserção nas vértebras lombares e pode tracionar as vértebras anteriormente aumentando o arco lombar para além do arco fisiológico. Diminuir este encurtamento torna-se fundamental na diminuição da dor, contudo mais importante do que isso é a necessidade de reforçar alguns músculos como os da parede abdominal, do assoalho pélvico, músculos relacionados com a respiração e musculatura paravertebral da região lombar. Para além destes o reforço do complexo glúteo é fundamental, uma vez que esta musculatura vem sendo pouco utilizada nos tempos modernos atendendo ao sedentarismo.

Esta fragilidade glútea pode estar relacionada com outras alterações para além da dor lombar como:
• Disfunção patelo-femural
• Síndrome da banda ou do trato ílio-tibial
• Síndrome do piriforme
• Desalinhamento extremidades inferiores
• A rutura do ligamento cruzado anterior (LCA).
• Instabilidade crônica do tornozelo.

Em suma, a pessoa que apresenta dor lombar deve:
1) Realizar uma avaliação postural criteriosa;
2) Não se assustar com algum diagnóstico de hérnia ou abaulamento discal;
3) Iniciar um programa de atividade específico baseado na avaliação realizada;
4) Realizar reforço muscular, provavelmente, de glúteos, transverso do abdómem, musculatura respiratória, músculos do assoalho pélvico e paravertebrais;
5) Diminuir a hiperatividade, tensões e encurtamentos, provavelmente de psoas maior, tensor da fáscia lata, reto femoral e tríceps sural;

A dor, como referimos, é de natureza múltipla e mesmo quando se trata de uma dor específica, devemos adotar uma conduta holística, procurando compreender os fenómenos na sua totalidade e globalidade.

Everton Kruel
Diretor técnico Personallis
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